quinta-feira, novembro 17, 2005

Tribunal do Trabalho ou a vã glória de viver…

Há tempos atrás, encetei uma caminhada ao Tribunal de Trabalho de Lisboa…desculpem…há dois tribunais…sim…eles andam aos pares…Fiquemo-nos, pois, pelo que se encontra (sim…é um achado) mais perto da Portugália da Almirante de Reis…

A odisseia começa à entrada. A porta tem o seu peso, não tanto, porém, como aquele que a burocracia e a falta de condições de quem lá trabalha se têm encarregado de prestar àquele mui nobre órgão jurisdicional.
Mas adiante…Entrei.

De imediato me deparei com uma estrutura de madeira com (não quero exagerar) 1,5 m2…O que era? Tss tss tss…pois não se está mesmo a ver?! Se estamos já dentro de um mui nobre órgão jurisdicional, não está bom de ver que aquela ode física à arquitectura moderna é…um PBX?! Ora…se bem me lembro, entre a madeira e um vidro que lhe servia de janela de atendimento, havia: uma lista telefónica, papéis…sim…papéis…acessórios de escritório como esferográficas e borrachas…AH…CLARO…estava lá também uma pessoa! Co’ a breca! Uma pessoa sim sr.! O ar vivaço e, porque não, um pouco matreiro com que ela se me deparou, deixava adivinhar o thrill que acompanha, decerto, todo o seu dia-a-dia.

Pensei: “Isto é tudo muito engraçado, mas tenho de me fazer ao piso, que a minha vida não é esta.”. “Xau Vanda” – pensei ainda…(tinha cara de Vanda).

Subi ao 3.ºJuizo, 3.ª Secção…(é uma forma que os tribunais têm para se organizar…não liguem…coisas deles!). Fui subindo, subindo…e voltei a descer. Vim só ao espaço de entrada novamente, certificar-me que aquele era o caminho…palavra que por momentos pensei que o facto de me ter deparado com escadas amarelas acastanhadas, outrora doutra cor que não aquela (uma outra impossível de apurar, tendo em conta os meios técnicos actualmente existentes na Terra), indiciava um caminho errado:
“Não…este não é o caminho para o 3.ºJuizo, 3.ª Secção! Não…”. Mas era. Voltei a subir.

Ufa…Cheguei. Há um guichet (Deus…como eu gosto desta palavra…dá assim um ar…não sei…administration publique).

O guichet tem um vidro fosco que vai até à zona do meu umbigo (estão a ver onde é, não estão? Aí..sim…mais ou menos…exactamente!! Aí mesmo!!!). Ao lado há uma porta aberta que dá para a sala (maior que a estrutura de madeira) onde estão os funcionários judiciais. MAS FALAR É PELO GUICHET!! (é mesmo gira esta palavra....então assim dita à bruta…ui!).

Baixo-me, dobro-me até estar suficientemente parecido com Quasimodo (um abraço para ti, Quasi)…
Depois de se desenvencilhar de cerca de 3,76 toneladas de papel (atenção…o número não é rigoroso), lá apareceu um funcionário judicial.

- “Boa tarde” (texto) / (“Olá”) - sub-texto, aka, momento Ally McBeal
- “Boa tarde. Eu vinha levantar as guias para pagamento de X…do Proc. N.º Y” / (“ Humm…Será que é assim que se pede?”)
- “Cá estão.”
- “Obrigado.” / (“Porreiro…era assim que se pedia")…”Diga-me uma coisa, depois venho cá entregar…” (“oops”)
- “Não. Entrega lá no piso 1 na secretaria geral, depois de pagar na CGD.” (“Daah”)
- "Ah…claro…ok" / (“Ora bolas…isto de ser estagiário…”).

Voltei da CGD.

("Olá Vanda").

Subi as escadas. (E o cheiro das escadas…?)
1º Piso. Há dois guichets (e no plural? Como fica bem no plural…). Um de frente para outro. No meu, no do comprovativo de pagamento das guias, não está ninguém. No outro estão cinco pessoas:

“Que engraçado…o quê? Ah…olha que engraçado…também vão de férias para aí? Conheço muito bem essa zona...E tu não te lembras da vez em que fomos todos…éramos tu, eu, o Zé (ahía…o Zé…), o Gaitas e a Fátinha…fomos todos até…blá blá blá blá….”

(3 minutos e meio depois de eu ter chegado, i.e. 3 minutos e meio depois do homem do meu guichet me ter visto…)

“Boa Tarde. Já tá atendido?”
“Não…” / (“MAS COMO RAIO É QUE POSSO ESTAR ATENDIDO SE TU NÃO ESTÁS NO MEU GUICHET…SE NESTE MOMENTO EU JÁ SEI ONDE PASSAS FÉRIAS, COM QUEM E O QUE GOSTAS DE COMER DEPOIS DE VIR DA PRAIA? COMO?!”)
“Ah…diga…era para quê?”
“ Era para entregar este comprovativo de pagamento de…”
“Ah…pode deixar aí…espere lá…eu vou aí…”
(“ Não..por amor de Deus…não se incomode”.)
“Olhe…deixe aqui em cima da minha secretária….Pronto. Obrigado! Boa tarde!”
“Obrigado. Boa tarde”.

Pensei: “Vou andando…acho que vou trabalhar…se bem que…”

Xau Vanda. Boa Sorte.

6 Comments:

Blogger Khibli said...

Ahahaha!!! Bem vindo! Depois de alguns momentos a pensar porque é que o J de JTF tinha desaparecido da assinatura, tudo se tornou claro: o queimado tinha mais um habitante. Prontinho a trazer a bit of nonsense a este blog de escrita bem comportada!

Por fim, a 5ª razão para eu ser a maior leitora do queimado! :)

5:35 da tarde  
Blogger JTF said...

Qual era a quarta? :)

5:37 da tarde  
Blogger Khibli said...

A quarta era o LN.

6:29 da tarde  
Blogger Delfim said...

Boas fotos! (Refiro-me em particular às descrições do PBX e do guichet.)

1:19 da tarde  
Anonymous Joana said...

Curioso...
as coisas cá na Holanda também funcionam assim...

4:45 da tarde  
Blogger rita said...

Querido Tiago, vai-se a ver, e nos tribunais de S. Miguel também temos direito a Vandas e afins... a República não quer privar os cidadãos das ilhas de terem todas as regalias de que os cidadãos do continente usufruem ;)
O consolo é que, no fim do dia, chego ao computador e leio esta belíssima descrição.
E os teus companheiros de blog também me parecem cheios de espírito.
Posto isto, hei-de visitar amiúde.
Respeitosos cumprimentos, desde o meio do Atlântico, para os responsáveis do blog, e beijinho para o "meu" Proctor.

10:31 da tarde  

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