sexta-feira, novembro 04, 2005

Metáfora do Brasil


Seu Jorge leva todo o Brasil dentro – na voz, no coração, no estômago, nas entranhas.

Um concerto de Seu Jorge, longe de ser um motivo para grandes deleites musicais, é uma viagem intensa aos vários Brasis que existem no Brasil: o Brasil da sensualidade e da alegria do samba, com vários bons momentos, que tornam boa parte do concerto numa grande festa; o Brasil da corrupção, interpretado de forma delirante e raivosa em Chatterton; o Brasil dos abissais desequilíbrios sociais, recitado, proclamado e explicado na primeira pessoa em Eu Sou Favela.

Ontem o concerto começou por ser uma grande festa logo desde o primeiro segundo. A alegria dominava o ambiente, toda a gente se abanava nas cadeiras e muita gente dançava já de pé, nos vários corredores da Aula Magna.

Os músicos de Seu Jorge, tal como ele, não são brilhantes, não são tecnicistas, não são grandes músicos... mas, também como ele, são honestos e genuínos – são músicos de rua, da favela, que têm muita história para contar, muito sentimento para partilhar e que se entregam ao momento dando tudo o que têm para dar.

E é de entrega e de genuína vontade de cantar, dançar, contar histórias e partilhar sentimentos que se faz a festa que é o espectáculo de Seu Jorge.

Mas faz-se também, e sobretudo, de sofrimento e de lágrimas.

Pelo que me contaram, Seu Jorge viveu na rua muitos anos – creio que entre 1989 e 1996.

Hoje Seu Jorge é famoso e vive bem – podia simplesmente disfrutar o momento, cantar os seus sambas e rentabilizar os seus minutos de fama. Mas não – optou por não ignorar o seu passado e por dedicar o tempo de antena que a fama lhe proporcionou para mostrar também a cara feia do Brasil e procurar que fique menos feia no futuro.

Ontem, ao terminar de recitar Eu Sou Favela, Seu Jorge levantou-se e contou como ele e os seus músicos são favela também. Como lá cresceram, como lutaram para matar a fome e para evitar a marginalidade e a delinquência e como essa luta continua a ser travada, ganha e perdida todos os dias no Brasil do século XXI.

E, com o seu exemplo, desafiou todos a procurar a resposta à pergunta que inquieta o Brasil e, no fundo, todos os outros países, na actualidade: como resolver a questão da pobreza e todas as suas causas, os seus sintomas e as suas consequências (o desemprego, a fome, a estigmatização, a delinquência, a marginalidade, etc.).

À medida que se intensificava a ovação, com que o público quis retribuir o momento de partilha que foi o Eu Sou Favela, todo o passado de Seu Jorge deve ter voltado à sua cabeça – a pequena lágrima que apareceu no olho de Seu Jorge no final da sua intervenção cresceu e transformou-se num choro convulsivo que o fez sair de palco e voltar apenas vários minutos depois.

Voltou e, em versão one-man-show, percorreu algumas músicas mais intimistas, ainda com as lágrimas nos olhos e com a raiva, que lhe fazia tremer a voz, no peito.

É verdade que o concerto teve também alguns momentos dispensáveis, a recordar que está formatado para outros palcos, onde ninguém entende o que ele diz, mas onde acham graça à excentricidade e aos ritmos brasileiros... Mas isso interessa muito pouco face à intensidade de tudo o resto...

O que fica é um concerto marcante, que felizmente não perdi, e a ideia de que Seu Jorge é afinal mais ainda que o Mané Galinha.

Seu Jorge é o Brasil.

3 Comments:

Blogger Ghibli said...

Em grande, JTF!

Grande regresso à blogosfera! :)

A leitora n.º1 do Queimado e seus intervenientes,

K.

10:55 da manhã  
Blogger Delfim said...

Esperamos que seja mesmo regresso e não passagem... :P :)

2:31 da tarde  
Blogger Joana said...

Estive lá. Não vi as lágrimas, mas senti. Coragem. Partilha. Intervenção. Punho forte.
Para mim, descreveste bem a imagem que me ficou, cá dentro a ressoar...E a música dá outra dimensão às palavras.
Bravo.

9:31 da tarde  

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