quinta-feira, junho 16, 2005

Como acabar com a Revolução?

Cuba é a terra dos espectantes.

Os velhos que viveram no tempo da outro senhor guardam de Fidel a ideia de alguém que conduziu Cuba a alguns progressos nomeadamente no que toca à igualdade racial, ao fomento da literacia, etc... No entanto, terá conduzido Cuba na direcção errada, levando a uma espécie de beco sem saída. Há um vago respeito, que tem mais a ver com a memória dourada de jovens que quiseram mudar o mundo (e que não conseguiram e mais do que isso, ficaram, no fim, pior do que o resto do mundo) do que com qualquer outra coisa. Vêem em Fidel, alguém que não se soube rodear das pessoas certas, e que por isso acabou mal.

Os novos e mais, que não sabem (e com alguma propriedade) não querem saber o que era Cuba antes do Fidel lá ter chegado, querem-se ir embora, fugir, ir para um mundo que não está parado no tempo e no espaço, onde, com mais ou menos sacrifícios, cada um tem direito a ter o sonho de poder vir a ser o que quer que seja. Em Fidel, vêem um avô distante, autoritário e opressor que nada lhes diz. Respeitam, por herança cultural. Não mudam por inépcia, medo e amorfismo.

Mas será que a (para mim) maldita Revolução acabará com a morte de Fidel? E o que acontecerá depois? Ficará tudo na mesma? Acho que não, porque dos três putos que tomaram Cuba, só o Fidel está vivo. Todos os outros são figuras menores que não têm qualquer carisma para sustentar no vazio o fardo de obrigar 11 milhões de pessoas a viver mal. Mutará lentamente para um democracia estilo ocidental ainda que com as manigâncias da América Latina? Eclodirá a guerra civil para ajustar as contas de 50 anos a serem denunciados pelos Comités de Defesa da Revolução? Expandirão os Yankees a sua base de Guantanamo à ponta oeste da ilha? Não sei. Mas não sei mesmo. Nem sequer uma pista...

No entanto, espero que a Revolução morra com o Fidel.

6 Comments:

Blogger Ana Duque said...

É como quem é pobre ou remediado e compra uma peça de ouro, algo com que sempre sonhou. Junta um dinheirito, a custo e sacrifício, e vai passando pela montra da loja, ansiando. Olha os ricos com a peça ostentada e vai acalentando a esperança de a possuir, num acto de liberdade.

Um dia, com esforço, entra na joalharia e aponta: aquela, a mais bonita.

Com os anos, no guarda-jóias, o par de brincos ou colar foi ganhando estatuto de antiguidade lá por casa, de coisa rara. Símbolo de provações e conquista. Bem precioso a preservar, um legado aos filhos.

Mas o ouro, por mais belo e valioso, vai perdendo o brilho, a graça mesmo. É preciso cuidar dele, limpar-lhe as filigrana ou pedras ou o tempo o esgotará.

Cuba está assim: jóia de avós, de valor sentimental e histórico irrefutável. Acontece que deixaram-na perder o brilho. Porém, poderá ainda passear-se num corpo. Basta alguém a recuperar.

Pode até ser que o mestre esteja por Havana, numas das largas ruas, escondido numa daquelas bancas onde se lê "joalheiro". Mesmo ao lado do muro onde "Pátria o Muerte" se escreve a tinta esbatida pelo sol.

* esperamos que o vosso regresso tenha sido como o nosso: reconfortante, ainda que - e apesar de tudo - tenha ficado uma "pontinha" de saudade na ilha. Afinal de contas acabamos por assistir a um período "especial", histórico.

Saudações bloguistas a ambos

1:25 da tarde  
Blogger LN said...

Minha muito cara Vizinha de Cima e caro Porteiro:

A nossa viagem de retorno correu bem, tal como a vossa. Ficou um misto de emoções relativamente a Cuba.

Esperemos que a jóia volte (ou comece) a brilhar um dia.

3:37 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Porque é que nunca falam do embargo?

8:52 da tarde  
Anonymous Vizinha de Cima said...

Porque o embargo serve demasiadas vezes de desculpa para demasiada coisa. Como já tivemos a oportunidade de relatar ao LN, ouvimos da boca de cubanos a referência "além" do embargo do EUA: o embargo dentro do embargo. Ou seja, o embargo interno, aquele que o próprio Governo cubano criou dentro do país. E desse poucos falam.

3:30 da tarde  
Blogger Delfim said...

Receio bem que após a morte de Fidel, Cuba mergulhe numa guerra civil. Depois de Fidel não existe ninguém. São muitos anos de denúncias à polícia política, a vontade de os cubanos ricos de Miami regressarem e ocuparem centros de decisão que os cubanos pobres, que aguentaram o regime estes anos todos, não quererão oferecer, assim sem mais, a quem chega naquele momento de fora.

A menos que os Cubanos consigam fazer uma revolução de cravos...

11:46 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Sim, mas também me parece um bocado injusto a forma como estão a julgar Cuba sem sequer se referirem a esse pequeno grande "pormenor"...

11:50 da manhã  

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